Tuesday, April 10, 2012


Você é a resposta
A qualidade de vida não deve ser alcançada, deve ser vivida.
Por Marcio Svartman

(artigo escrito para a revista ResultsOn, janeiro 2012)

Há uns dias estava eu em um dos meus mais apreciados programas. Meditava à beira de um lago em um templo budista próximo a São Paulo. Após algum tempo, terminei meu despertar com um suspiro. Mais um minuto e peguei do bolso meu celular. Chequei e-mails, comecei a responder alguns. Um homem parado a alguns metros, no meio do jardim, me olhou com olhar superior e disse: Nem aqui você consegue se libertar. É prisioneiro da tecnologia e dos tempos modernos, que pegam você onde você estiver.
Olhei atentamente para meu colega de jardim, refleti um pouco, e respondi: Meu amigo, são três da tarde de uma 3a feira. Eu estou meditando na beira de um lago, cercado por um bosque. Não fosse este aparelho e tão diabólica tecnologia, eu certamente estaria em meu escritório. A tecnologia que te aprisiona, a mim, liberta.
Não faltam respostas à pergunta: O que nos aprisiona ao trabalho e às nossas obrigações de forma a nos oprimir. Mas a maioria das respostas, são dissimulações de uma realidade interna, emocional, e que só nós mesmos podemos melhorar. Eu poderia ver aquele evento na beira do lago como uma opressão da tecnologia, e se o fizesse, me sentiria oprimido.
Tem filhos?
Não. Tinha dois, mas morreram, Graças a Deus.
Fica feliz com a morte de seus filhos?
Sim. Agradeço a Deus. Estou livre do peso de sustentá-los, e eles, pobres criaturas, livre do peso desta vida mortal.

Este diálogo é um fragmento de uma entrevista de emprego. Ela aconteceu em Londres, em meados de 1.800.  Está retratada no livro “História da Riqueza do Homem”, de Leu Huberman.
Não estamos em um período onde o trabalho é mais opressor.  Nossa demanda por qualidade de vida não é fruto de um momento onde o trabalho é excessivamente repressivo. É resultado de um momento em que se amplia a consciência humana sobre o fato de que a vida pode ser mais do que isso. Sobre o fato de que já desenvolvemos conhecimento e tecnologia suficiente para resolver todos os nossos problemas concretos com menos esforço, e podemos passar a curtir o mundo ao invés de destruí-lo. O problema é que desenvolvemos a consciência, mas ainda não resolvemos concretamente esta equação.
Mas a solução da equação está também na consciência. O comportamento do mundo e das organizações é o reflexo tardio de nosso comportamento. A idéia de que pressão no trabalho está matando as pessoas muito jovens também é uma ilusão. A expectativa de vida cresce de maneira assustadora. Só nos últimos 30 anos, segundo o IBGE, subiu mais de dez anos, chegando, no Brasil, a 73,5 anos. Daí também vem a vontade de viver bem, pois viveremos muito.
Como resolver este dilema?
O dilema é interno, e não será resolvido pelas empresas, mas sim em uma relação dinâmica entre as pessoas e as organizações, buscando um equilíbrio positivo, que incentive as pessoas a trabalharem bem e torne as organizações o espaço onde as pessoas irão exercer sua criatividade, sua inovação e sua experimentação. Será sempre uma relação dialética entre todos os agentes, pois qualidade de vida também não é a mesma coisa para todos.
Outro dia eu estava em um café e vi dois jovens executivos conversando, quando um deles, com ar professoral disse: “O negócio não é ter qualidade de vida. O importante é ter uma vida de qualidade.”
O que? Isso, perdoem-me, não quer dizer nada. As duas frases são a mesma coisa! Mudar a ordem das palavras não nos dará um horizonte maior de soluções. A vida deve ser um espaço de realização de nosso potencial. Os lideres que construirão o futuro são aqueles que puderem criar ambientes assim, coordenando equipes pelo desafio ao invés da pressão. Pelo comprometimento ao invés da ameaça.  E, no mundo, acho que nem todos poderão gozar de uma vida de realizações, assim como nem todas as empresas despontarão como ícones da inovação e do crescimento. Pense como sua organização estará entre elas.
O desafio segue na dimensão individual, e aí existem pelo menos duas frentes importantes: a fé e o desapego. A fé para crer que o futuro será bom, e que poderemos sobreviver nele, tirando-o de uma posição de incerteza assustadora. O desapego vem para reforçar este sentimento e incentivar a ousadia. Gandhi certa vez disse: Não há problema em se ter uma fortuna, mas não podemos sofrer caso a deixemos de tê-la. De maneira geral nossa sociedade ainda persegue o material, e a tranqüilidade oferecida por ele é efêmera, e sempre será.
Por fim, a qualidade de vida não está e jamais estará ligada ao que se tem, mas sim a como nos relacionamos emocionalmente com o que está ao redor. E isto é sempre difícil de admitir em uma sociedade acostumada a lidar muito com o concreto e muito pouco com a subjetividade. Está na hora de mudar isto, e comece por pensar o que você quer para a sua vida, pois esta resposta é responsabilidade sua, não da empresa onde você trabalha.

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