A Microeletrônica das Marcas (reloaded)
Marcas são formas de contar histórias e dar informações.
Estava observando o caminhar ritmado de uma gigantesca multidão na Avenida Paulista quando me invadiu uma angústia: Será que minha individualidade existe no meio de tanta gente?
Comecei a olhar ao redor enquanto centenas de pessoas anônimas passavam por mim, invisível a elas no meu próprio anonimato. Eu, por ter sido invadido por um lampejo acidental de consciência, procurava notá-las. Eu não podia acessá-las, ainda que estivessem todas ao meu redor.
O ser humano vive sob alguns medos primitivos da formação do nosso psiquismo. Um deles: o medo de aniquilação. Sim, o medo de sermos aniquilados é um dos medos primitivos segundo as teorias psicanalíticas. Temos medo de deixar de existir.
O que isto tem a ver com as marcas? Muito.
Marcas são formas de contar histórias e dar informações. São etiquetas informativas, cujas informações são dadas ao longo do tempo. É um pequeno significante que representa um complexo significado. Marketeiros atrás de cada marca buscam dar a uma marca melhor e maior capacidade de armazenamento de significados. Somos como cientistas da microeletrônica tentando aumentar e melhorar constantemente a capacidade de armazenamento de um chip. Fazemos o mesmo com uma marca. Queremos que ela seja capaz de dizer cada vez mais , enquanto tentamos fazer cabê-la em tudo, em cada pequeno espaço.
Cada marca tem sua forma de trabalhar, tem sua história e sua promessa de futuro. É isto que as pessoas olham. No final, nosso apego às marcas é absolutamente subjetivo.
Temos poucas oportunidades de conversar profundamente com alguéme dizer quem somos, no que acreditamos e o que queremos fazer. Contar quem somos nós é uma necessidade de nossa existência para sentir que somos alguém. È uma necessidade psíquica frente ao medo de aniquilação. Ao medo de desaparecer em um mundo onde há cada vez menos tempo para dizermos quem somos. Queremos pertencer a um grupo, ou vários que nos ajudem a sentir que existimos e que somos parte de algo. É normal, natural e saudável. Nossa individualidade não se constrói naquilo que só nós fazemos, mas sim no cruzamento entre todos nossos grupos de pertença. Eu sou eu de maneira singular, pois somente eu pertenço a todos estes grupos.
Nossos chips mercadológicos, as marcas, entram aí para cumprir seu papel.
Ao carregar uma marca tenho a possibilidade de contar quem sou. Contar com a ajuda de dinheiro e tempo investido naquela marca para armazenar informações que, agora, estão à minha disposição. Ao exibir uma marca na minha roupa ou na minha comida, pego emprestado informações e valores dessa marca que passam a contar também sobre quem sou eu. Ajudam a apaziguar meu medo de desaparecer e de não ser ninguém, porque me ajudam a contar sobre os grupos a que pertenço e o que eu penso. Uma marca, cada vez mais, é um poderoso chip de informações que são transferidas para quem a usa.
Tamanha é a quantidade de informações que um chip, digo, uma marca, armazena hoje em dia que não se pode dar ao luxo de carregar informações dissonantes. Incoerência é um veneno para uma marca. As pessoas contam com a marca para representar sua existência qualitativa neste mundo de angústias. Quando uma marca é incoerente com suas posturas está traindo seus consumidores em suas necessidades mais íntimas. É uma traição imperdoável.
Por fim, marketeiros: Sejamos responsáveis em nosso papel de construir e manter marcas. Sejamos coerentes e cobremos, nós também, das empresas nas quais trabalhamos, para que sejam coerentes em suas posturas e ações. Cobremos de todos os envolvidos na vida de uma marca, que sejam verdadeiros e responsáveis. Conscientes da importância do que fazem, que vai muito além de vender mais. Resgatemos sempre a relevância que nosso papel pode ter no mundo, pois o mundo precisa de atuações relevantes e nós... Nós também precisamos, para que possamos também apaziguar nosso medo de desaparecer na existência fútil.
(este artigo em sua versão original foi publicado na Revista da EXPM – 2009)